Relato do atropelamento

Perdi o timming. Mas, mesmo atrasado, vale a pena ler o relato do Dailor, nosso colega de trabalho fixeiro gaúcho.

Ele foi um dos “sortudos” que teve “só” umas escoriações e a bike esmagada pelo assassino do golf preto.

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Nunca na minha existência presenciei um tiroteio, mas essa foi a certeza ao ouvir as primeiras bicicletas e ciclistas estilhaçarem os vidros do Golf preto até eu ser atingido por trás e me perceber no chão, repleto de dúvidas. Ao olhar à minha volta e depois o carro no horizonte, comecei a entender que aquilo havia sido um atropelamento coletivo em plena Massa Crítica, proposital e cruel, em decorrência do surto egoísta e violento de um “cidadão de bem”.

A sensação física de um atropelamento é horrível, não há tempo de evitar e, quando acontece o impacto, o corpo é atingido rapidamente em vários lugares, a confusão de idéias se instaura e logo as dores começam a lembrar da realidade. Felizmente, nada grave: um entorse no tornozelo (facilitado pelo firma-pé, hehe), pontos nas costas e hematomas e arranhões por todo o corpo. Sorte.

Assim que percebi não ter sofrido nada grave, vi um amigo deitado no chão, inconsciente, mas com diversas pessoas ilesas e mais aptas a ajudá-lo, portanto tratei de me recompor. No mesmo instante recebo uma ligação da namorada, querendo saber se eu tinha participado da Massa – devido ao mau tempo – e quando iríamos nos encontrar. Na afobação de contar os fatos e sem saber da gravidade dos feridos, fiquei tonto, tive que sentar de novo. Por pouco não foi a primeira participação dela, e caso estivesse do meu lado esquerdo… Nem quero pensar…

Era a quarta Massa Crítica de que eu participava com uma fixa. Já éramos cinco ou seis todos os meses e cada vez mais gente que provava alguma alheia dizia “quero uma pra mim!”. Faz uns 3 anos que comecei a utilizar a bicicleta como meio de transporte e uns 6 meses que passei a pedalar quase que exclusivamente de fixa. E tem sido cada vez mais deliciosa a interação com a bicicleta e com o meio urbano, pois sabemos que é uma experiência diferente: antecipar as freadas, embalar nas subidas, reduzir com as pernas, sentir-se um só. Até então, minha opinião sobre o trânsito de Porto Alegre era mais positiva, naquilo que é possível ter de positivo em uma capital brasileira sem qualquer incentivo à bicicleta, ou seja, não recomendaria para muitos, porém me sentia relativamente seguro.

Já em relação à Massa, o clima era de amizade, celebração, tranqüilidade, reivindicação, visibilidade. Nem por isso tudo eram flores: xingamentos eram normais, pois o processo de sair da bolha não está ao simples alcance de uma atitude pessoal, é preciso vencer as estruturas alienantes e individualistas e, para contribuir com isso, não vejo como pedalar sem ser visto e sem “trancar” a rua momentaneamente. Mas esta já é uma discussão posterior que não deve prevalecer agora.

Apesar do descontentamento de muitos, nunca imaginei que algum motorista fosse capaz de simplesmente avançar o carro sobre mais de uma centena de ciclistas que pediam – vejam só que audácia! – mais humanização no trânsito e no espaço público. Sempre achei que uma briga poderia ocorrer, mas não isso.

Enfim, acho que a partir de agora tudo será diferente. A exposição dada ao fato nos coloca como responsáveis – qualquer ciclista – em defender cada vez mais a bicicleta como meio de transporte, o planejamento mais humano do espaço urbano e um maior respeito às leis de trânsito. Mas confesso que no momento, em meio a inquérito policial, processos judiciais e reportagens na mídia, o que eu queria mesmo era só pedalar de novo minha fixa!

Coragem!

Dailor Sartori Junior

3 respostas para Relato do atropelamento

  1. Rangel disse:

    Foda!
    E bora pedalar!

  2. Gunnar disse:

    “vencer as estruturas alienantes e individualistas”

    Não precisava, né?

  3. dailor disse:

    Precisar não precisava, mas que tal explicar melhor teu argumento? dailorjunior@gmail.com

    abraços

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